Biografia

Fernando Barata – Raízes nômades

O aparecimento da fotografia modificou profundamente a representação pictórica da natureza e do homem. Durante o século XX, foi com grande liberdade em seus empréstimos mútuos que pintores e fotógrafos alimentaram-se uns com os outros e enriqueceram seus olhares sensíveis e formais. A transferência recípoca das técnicas, no entanto, não foi feita sem transtornos. Se ela permitiu que a fotografia se impusesse como uma verdadeira arte, podemos nos perguntar se ao mesmo tempo ela não acompanhou um certo recuo do pictórico ao passo que a implantação da imagem de síntese e do vídeo se consolidaram na apreensão do real e do simbólico.

A reflexão plástica do pintor Barata é interessante sob este aspecto, pois seu trabalho, longe de ter-se submetido ou neutralizado por esta aceleração tecnológica, propõe uma integração crítica ao serviço da invenção de novas formas para a sua arte. Em perfeita lógica, pois a transformação da imagem é uma das preocupações mais importantes da sua pesquisa pictórica há quase vinte anos. O triunfo das correntes neo-figurativas na Europa durante a década de 80 não deixou o pintor brasileiro indiferente. Mas ele soube privilegiar uma inspiração "transvanguardista", cultivando uma abordagem da cor muito luminosa e metaforizando, com símbolos freqüentemente abstratos ou muito geometrizados, a evocação do mar – areia, pedra, estrela, peixe, barco, água – e a memória da sua cidade natal, o Rio de Janeiro.

Nesta busca da renovação da imagem, Barata preferiu, para as suas últimas obras, ancorar-se deliberadamente nas subversões tecnológicas do seu tempo. Perseguido pela rapidez das mudanças técnicas, submetido à pressão do tempo sobre a sua criação e ao bombardeio incessante de imagens de todas as proveniências, o pintor encontra-se num dilema difícil. Hoje, seus questionamentos e suas escolhas a respeito do sentido do pictórico e da sua abertura – ou da sua resistência – às novas tecnologias, formam um dos aspectos mais importantes da sua identidade como criador. Nesta problemática que também tem para Barata uma dimensão existencial, não somente é questionada a natureza física da criação mas também sua dimensão filosófica.

Análise e reflexão, resistência, distância, integração. As ferramentas e as etapas são claras e balizam o seu percurso. Sua abordagem tem como objeto utilizar o computador para criar seu banco de imagens a partir das suas próprias pinturas e desenhos. Assim, ele digitalizou toda a sua produção dos últimos vinte anos e trabalha as suas próprias imagens (sem manipular o que quer que seja a mais), convencido de que a pintura não tem outra saída que a de integrar-se nestas novas tecnologias e transformar-se. O computador torna-se então, para ele, um órgão de mediação. Uma ferramenta e não um fim, pois o resultado destas transformações da imagem que ele aumenta, diminui, fragmenta, desfaz, reconstrói, etc. serve para que ele crie novas pinturas. Aliás, ele confia que "o computador lhe dá idéias, abriu horizontes, ampliou sua criatividade e que não é para ele uma questão de substituição mas de integração". Este interesse pela técnica não é novo nele, pois já pintava em fragmentos de vidro e transferia a película de acrílico para a tela. Ele nos remete portanto a esta questão lancinante, altamente desvalorizada hoje em dia, a das relações entre arte e técnica.

Vendo suas últimas obras, ficamos tocados pela maior sintetização das formas, pela depuração das linhas, por camadas que ao mesmo tempo se impõem e são "transparentes". Se a técnica o leva a uma certa "simplificação" da imagem, é para melhor confirmar a perenidade que fundamenta sua relação com o real. Mas um paradoxo atravessa o espírito: o trabalho de concepção das formas pelo computador levaria o artista a menos imagens? Nele, não há qualquer dúvida de que a dimensão de uma maior abstração reencontra o que no fundo é o eterno jogo a partir da imagem, sobre a imagem e para a imagem. Numa repetição de que não temos como nos cansar.

Christine Frérot, Paris, junho de 2000